NOTÍCIAS | Fique ligado nas informações do momento
 
 
Tiago Iorc adensa o som e evolui como compositor no álbum 'Reconstrução' sem romper totalmente com o estilo anterior
Canções introspectivas como 'Sei' e 'Bilhetes' sobressaem entre as 13 músicas autorais do disco.


Após sair de cena em janeiro de 2018, deixando somente breve post nas redes sociais, Tiago Iorc voltou hoje e, sem aviso prévio, lançou album ao primeiro minuto deste domingo, 5 de maio de 2019.

Com 13 inéditas músicas autorais, acompanhadas dos respectivos clipes, o álbum Reconstrução (Iorc Produções / Universal Music) faz jus ao título.

Neste disco confessional produzido por Mario Caldato Jr. com Roberto Pollo, Tiago Iorczeski adensou o som e, mesmo sem romper radicalmente com a persona artística construída em discografia iniciada em 2008 em língua inglesa, mostra nítidos progressos, sobretudo como compositor.

A evolução é perceptível já na primeira das 13 músicas, Desconstrução (Tiago Iorc), de título alusivo a Construção (1971), uma das obras-primas do cancioneiro de Chico Buarque.

Mesmo sem atingir a precisão arquitetônica de Chico no encaixe dos versos nas métricas da música, Iorc apresenta canção espessa em que versa sobre o processo de estilhaçamento da personalidade de uma menina, personagem de Michele Alves na narrativa visual do filme assinado por Tiago Iorc com Rafael Trindade.

"Ninguém notou a sua depressão / Seguiu o bando a deslizar a mão / Para assegurar uma curtida", relata Iorc no arremate da canção Desconstrução, dando voz a versos surpreendentes para um artista que se tornou popstar a partir de 2015 com álbum intitulado Troco likes e já concebido em bom português.

A densidade do álbum Reconstrução reside sobretudo nas letras. O disco é conceitual. Mesmo que as letras de Iorc abordem primordialmente o fosso e o gozo do amor a dois, fica claro que o artista está falando de si mesmo.

A canção Desconstrução dá a primeira pista da rota emocional do álbum, iniciando viagem que alterna peso e leveza. Talvez para não assustar e afastar o público que passou a segui-lo por conta de canções felizes como Amei te ver (2015), Iorc deixa o suprassumo do álbum Reconstrução para o fim.

As duas faixas finais – Bilhetes (Tiago Iorc e Duca Leindecker) e Sei (Tiago Iorc) – formam com Desconstrução o tripé de canções introspectivas que sustentam e valorizam o disco.

São canções fundamentais que dão a senha para a abertura da alma do artista. Os versos despudoradamente confessionais de Bilhetes sugerem a tempestade que pode ter desabado sobre o cantor.

"O aperto aqui no peito / Me roubou o amanhecer / ... / O medo me persegue / Me impede de sentir / ... / Eu posso esperar / A chuva passar / Pra tudo recomeçar / ... / Às vezes não tem outro jeito / O jeito é seguir / Lembrar que o que me fere / Também me faz sorrir", pondera Iorc, em canção de progressiva intensidade.

Balada escura, conduzida por toque soturno de piano, Sei (Tiago Iorc) sinaliza que a chuva pode estar passando. "Eu me perdi / Sinto a minha falta / Me sufocar / Há / Tanto porvir / Sei que isso vai me libertar / E não leva a nada / Não me leva a nada / Tanto lamentar/ Sou o que me leva / Posso acreditar / Fui além do céu e o mar / Até achar / Meu caminho / Bem aqui / Sempre esteve / Na minha frente", conclui Iorc nos versos finais do disco.

O álbum Reconstrução também deixa o sol entrar. Embora permita entrever estados depressivos, a bonita balada A vida nunca cansa (Tiago Iorc) procura dissolver nuvens negras no toque de um violão sem diluir o clima denso.

A canção Nessa paz eu vou (Tiago Iorc) reaviva o Iorc fofolk de discos anteriores. Música embalada em instrumental mais refinado, Laços (Tiago Iorc e Duca Leindecker) indica que o artista pode ter endurecido sem perde a ternura. Em clima similar, Hoje lembrei do teu amor (Tiago Iorc) reacende flashes felizes de amor que já se foi.

E o amor, em Reconstrução, vem muito associado ao sexo. Músicas como Deitada nessa cama (Tiago Iorc), Tangerina (Tiago Iorc e Roberto Pollo) – faixa criada sobre base eletrônica – e as funkeadas Faz (Tiago Iorc) e Fuzuê (Tiago Iorc) exalam sensualidade em maior ou menor grau.

Instante de leveza pop, Tua caramassa (Tiago Iorc) também entra nessa dança sensual com clipe em que o rosto da mulher amada é moldado como obra de arte.

Me tira para dançar – parceria de Iorc com María Elena Morán, roteirista dos clipes em função dividida com Rafael Trindade e o próprio Iorc – cai em suingue tropical com latinidade que evoca batucada no verso "Caio no teu samba".

Álbum bem mais consistente do que Troco likes, Reconstrução flagra Tiago Iorc em processo de transição, seguindo em frente rumo a uma música bem mais complexa, mas ainda sendo puxado para trás, como se ainda estivesse acorrentado aos grilhões de um sucesso que pode aprisionar.

 
  Data: 06/05/2019